A Terapia de Reposição Hormonal (TRH), costuma ser associada ao momento em que a menstruação desaparece definitivamente. Mas será que é preciso esperar a menopausa para iniciar o tratamento?
Em algumas mulheres, a terapia hormonal pode ser considerada ainda durante a perimenopausa, fase que antecede a menopausa e na qual os níveis de estrogênio e outros hormônios começam a oscilar.
Esse é um ponto importante porque muitas mulheres passam anos acreditando que precisam “aguentar” ondas de calor, insônia, alterações de humor, ressecamento vaginal ou outros sintomas até a última menstruação. Na realidade, a transição para a menopausa pode começar anos antes e já provocar manifestações que merecem avaliação médica.
Antes de tudo: menopausa e perimenopausa não são a mesma coisa!
Um dos maiores erros quando se fala sobre terapia hormonal é tratar o climatério e a menopausa como se fossem exatamente a mesma fase.
A menopausa é definida retrospectivamente: ela corresponde à última menstruação, confirmada depois que a mulher passa por 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não existe outra causa para a ausência do ciclo.
Já a perimenopausa é o período de transição que antecede a menopausa. Nessa fase, a atividade ovariana vai se modificando e os níveis hormonais passam a oscilar de maneira menos previsível.
É justamente por isso que uma mulher pode apresentar sintomas importantes mesmo continuando a menstruar. Portanto, continuar menstruando não significa necessariamente que os hormônios estejam estáveis.
Então, é possível iniciar a TRH durante a perimenopausa?
Sim, em determinadas situações.
A terapia hormonal pode ser considerada durante a perimenopausa quando a mulher apresenta sintomas compatíveis com a transição menopausal e, após avaliação individualizada, os benefícios esperados superam os riscos.
Vale destacar que a terapia hormonal, quando bem indicada, pode ser utilizada em mulheres sintomáticas durante a perimenopausa ou nos primeiros anos após a menopausa, sempre com seleção adequada do hormônio, da via e da dose.
Isso significa que não é necessário esperar a menstruação desaparecer completamente para conversar sobre tratamento. Na prática, a pergunta mais importante não é “já entrei na menopausa?”, mas sim: “Tenho sintomas que estão prejudicando minha qualidade de vida e a terapia hormonal é segura para mim?”
Essa mudança de perspectiva ajuda a evitar tanto o subtratamento quanto o uso indiscriminado de hormônios.
Quais sintomas podem aparecer antes da menopausa?
Os primeiros sinais da transição menopausal podem variar bastante entre as mulheres. Em algumas, a primeira manifestação é uma alteração no padrão menstrual. Em outras, os sintomas vasomotores tornam-se mais evidentes.
Entre as manifestações que podem aparecer durante a perimenopausa estão:
Ondas de calor: são episódios súbitos de calor, geralmente acompanhados de suor e, em alguns casos, palpitações e desconforto. Quando são frequentes ou intensos, podem interferir diretamente na rotina.
Suores noturnos: os episódios durante o sono podem provocar despertares frequentes, dificuldade para voltar a dormir e cansaço durante o dia.
Alterações do sono: a mulher pode apresentar dificuldade para adormecer, acordar várias vezes durante a noite ou sentir que o sono não é reparador.
Alterações menstruais: mudanças no intervalo entre as menstruações, no volume do sangramento e na duração dos ciclos são comuns durante a transição. Ainda assim, sangramentos muito intensos, prolongados ou inesperados devem ser investigados.
Sintomas geniturinários: ressecamento vaginal, ardência, desconforto durante as relações e alterações urinárias também podem aparecer conforme ocorre a redução da ação estrogênica nos tecidos genitais e urinários. A presença de um ou mais desses sintomas não significa automaticamente que a mulher precise de TRH. Eles indicam que existe uma situação que merece avaliação.
Quais hormônios são utilizados na TRH?
A composição da terapia hormonal depende de uma série de fatores, especialmente da presença ou ausência do útero.
O estrogênio é o principal hormônio utilizado para tratar sintomas relacionados à deficiência estrogênica.
Mulheres que possuem útero geralmente precisam associar um progestagênio ao estrogênio sistêmico, porque o estrogênio isolado pode estimular o endométrio e aumentar o risco de hiperplasia e câncer endometrial.
Em mulheres que não possuem útero, o médico pode considerar terapia com estrogênio isolado, dependendo do motivo da histerectomia e de outros fatores clínicos. Portanto, não existe uma fórmula única de reposição hormonal que sirva para todas as mulheres.
E se a mulher ainda estiver menstruando?
Esse é um dos pontos que mais geram dúvidas. Uma mulher pode estar na perimenopausa, ainda apresentar menstruação e, ao mesmo tempo, ter sintomas vasomotores importantes.
Nessa situação, o médico pode discutir diferentes possibilidades terapêuticas, levando em consideração também a necessidade de contracepção. Isso porque terapia hormonal para menopausa não deve ser confundida com anticoncepção.
A mulher na perimenopausa ainda pode ovular e engravidar. Portanto, quando existe possibilidade de gravidez, o planejamento contraceptivo precisa fazer parte da consulta.
Dependendo da idade, do padrão menstrual, dos sintomas e dos objetivos reprodutivos, podem existir estratégias que associem controle dos sintomas e contracepção, mas isso precisa ser individualizado.
Afinal, começar cedo é sempre melhor?
Não. Existe uma diferença importante entre dizer que o momento de início influencia a relação entre benefícios e riscos e afirmar que toda mulher deveria começar hormônios o mais cedo possível.
A terapia hormonal não deve ser usada como uma estratégia de prevenção geral ou como uma forma de “repor hormônios” apenas porque uma mulher atingiu determinada idade.
A indicação deve existir!
Portanto, começar antes da menopausa pode ser apropriado para algumas mulheres, mas não existe uma idade universal para iniciar a TRH.
Quais são as principais vias de administração?
Uma das vantagens da terapia hormonal moderna é a possibilidade de escolher diferentes vias de administração. O estrogênio sistêmico pode ser administrado, por exemplo, por:
- comprimidos;
- adesivos transdérmicos;
- géis;
- sprays;
A escolha não deve ser feita apenas por preferência estética ou praticidade. A via pode influenciar o perfil de segurança e precisa considerar fatores individuais.
Em algumas situações, a via transdérmica pode ser considerada particularmente interessante, inclusive quando existem fatores de risco específicos, como risco aumentado de tromboembolismo venoso. A decisão, entretanto, deve ser individual.
Quem não deve usar TRH sem avaliação especializada?
Existem situações em que a terapia hormonal sistêmica pode ser contraindicada ou exigir avaliação especializada. Entre elas estão alguns históricos de:
- câncer de mama;
- câncer de endométrio;
- doença cardiovascular;
- acidente vascular cerebral;
- tromboembolismo;
- doença hepática importante;
A lista exata de contraindicações depende da formulação e do contexto clínico de cada paciente.
TRH antes dos 40 anos: é a mesma situação?
Não. Quando uma mulher apresenta sinais de falência ovariana ou menopausa antes dos 40 anos, estamos diante de uma situação clínica diferente da perimenopausa habitual.
Nesses casos, pode haver suspeita de Insuficiência Ovariana Prematura, condição que exige investigação específica. A deficiência estrogênica em idade muito jovem pode ter consequências importantes para a saúde óssea, cardiovascular e sexual.
Por isso, quando a menopausa ocorre precocemente, a discussão sobre reposição hormonal não deve ser reduzida apenas ao controle de sintomas. O objetivo pode incluir também a proteção da saúde a longo prazo, desde que não existam contraindicações.
Informação e acompanhamento são essenciais para uma escolha segura!
A possibilidade de iniciar a TRH antes da menopausa definitiva é uma informação importante para mulheres que já estão apresentando sintomas durante a perimenopausa.
Esperar obrigatoriamente a última menstruação para procurar ajuda pode significar passar meses ou anos convivendo com manifestações que poderiam ser avaliadas e tratadas. Ao mesmo tempo, a TRH não deve ser encarada como uma solução universal nem iniciada apenas pela idade.
O melhor momento para tratar é aquele em que existe indicação clínica, segurança e uma decisão compartilhada entre paciente e médico.
A menopausa não precisa ser enfrentada com sofrimento silencioso. Com avaliação individualizada e tratamentos baseados em evidências, é possível controlar sintomas, preservar a qualidade de vida e cuidar da saúde da mulher de forma integral ao longo dessa nova fase.